Figuras de Linguagem

janeiro 5, 2010

Pombas.

Arquivado em: cotidiano — Tiago P. S. @ 6:42 pm

Pombas não voam mais.

pombinho.jpg
Digo isso porque lembro que elas voavam. Num bater de palmas decolavam
assustadas. Olhou torto, voou. Cadê a pomba que estava aqui?

Eram ligeiras, urgentes, escorregadias aos olhos.

Agora não. Mendigam migalhas por entre pés humanos em qualquer
mesa-de-calçada. E às vezes até mesmo fora da calçada. Se os pés se
movem em direção a elas, pulam. Duas, três asadas no máximo. Inaptas e
tortas.

Atravessam a rua caminhando. Eu buzino, elas apertam o passo; o motor
se aproxima, elas correm assustadas. E não voam.

Ratos com asas? Não. Galinhas urbanas. Atrofiadas e transeuntes.

Pedestres.

Ilustração por Felipe Corsini e texto por Tiago P. S.

novembro 29, 2007

Emergência.

Arquivado em: vida cinza — Tiago P. S. @ 11:14 am

dente.jpgAcordei com dor de dente,
não posso beber quente,
mas sempre que tenho emergências desse tipo
acabo postergando para sempre, e no final digo:
“o mundo não precisa de mim;
nem do meu problema mirim”.

Eu tenho é que me concentrar.
Ser eficiente e sempre exemplar.
Ter postura, vontade de vencer.
Sorriso e “bom-dia!” ao amanhecer.

Deixa a dor de lado, empregado!
Precisas é de aumento de salário!
Analista promissor, não um otário!
E um plano de saúde menos ordinário.

Aí sim, o dentista virá até a mim.
Estarei acomodado, enfim.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

outubro 24, 2007

Alvo.

Arquivado em: vida cinza — Tiago P. S. @ 12:17 pm

Envelheço num bloco de notas aberto.
Alvo. Traço piscando intermitente,
pedindo algo que o defina, decerto.

Envelheço. Sinto-me, certamente,
como máquina de pêlos que crescem:
autômato. Simplesmente vivente.

Como estarei, afinal, no adiante?
Terei o que se revela necessário
ou viverei como dependente infante?
barbas.jpg

Desculpe-me. Perco-me em insônia e matéria:
ondas de uma vida responsável,
mas que insiste em não ser séria.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

agosto 10, 2007

Monólogo.

Arquivado em: cotidiano — Tiago P. S. @ 11:11 am

Entre uma história e outra,
uma voz um tanto rouca
tenta mostrar, aos gritos,
que acredita em mitos.

Que eles existem, aos montes.
E que suas duvidosas fontes
são meus sonhos pequenos,
meus afetos e meus medos.
tiagones.jpg
Porque sonho; digo até que exagero.
Mas compartilho meu querer sincero
com aqueles que me escutam (coitados):
seus olhares me aceitam, indignados.

Isso tudo numa curta ida ao domingo;
logo mais estarei firmado, fingindo
a importância do momento: se o café
está quente e no porvir eu tenho fé.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

junho 22, 2007

Sombra.

Arquivado em: vida cinza — Tiago P. S. @ 5:49 pm

sombra.jpg
Não vejo diferença
entre desavença
e esperança
quando esta última
vem cheia de cobrança
e gritando agressiva: avança!

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

junho 13, 2007

Você está no trabalho?

Arquivado em: vida cinza — Tiago P. S. @ 8:05 pm

brain.jpgAlô?

É para você.

Puxe a ligação.

Passe para esse ramal.

Vamos fazer uma conference?

Acho que você errou o meu ramal.

A minha cabeça dói. Doem as têmporas. Elas não querem que eu saiba, mas doem.

A rotina do labor de “cá-estou-executando” traz uma dor de fundo, disfarçada, quase muda, que muito bem engana a Neosaldina e o meu julgamento. O único sinal, talvez, é a miopia potencializada, é o esfregar dos olhos, “pois o monitor está me deixando cego, veja bem”. E, quanto mais se produz, maior a sensação de intelecto que se esvai.

Como um ser que o devora – e não diz o que vai ser daqui para frente.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

maio 7, 2007

Segunda-feira.

Arquivado em: cotidiano — Tiago P. S. @ 3:16 pm

O corpo reclama. Meus pensamentos sentam em algum lugar entre o cheiro do meu travesseiro e esse maldito sinal quebrado.

Ninguém anda. Buzina, buzina, buzina. Buzina ao caos. Do meu carro eu consigo ler a traseira do ônibus-gigante: “veículo longo”. Engraçado terem que avisar por escrito.
bus.jpg
Eu queria que os meus finais de semana também fossem triarticulados.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

maio 4, 2007

Hello, I love you.

Arquivado em: contos — Tiago P. S. @ 11:31 pm

O enterro foi há quinze ou dezesseis anos. Eu, na fila do cinema, em companhia da minha mãe. Naquela época de transição de idades em que ir ao cinema com a mãe – de mãos dadas, ainda por cima! – já nos soa bastante desconfortável, mas não completamente desaconselhável. Bobagem pueril. Mais tarde, isso tudo se inverte.

Apesar da minha célebre memória esclerótica, lembro-me de detalhes ínfimos da tal protagonista da cena. Os pormenores, que vão da roupa aos gestos – incluindo o jeito como ela ria, fechando um pouco os olhos -, são-me tão nítidos e recentes quanto o dia de ontem.

Tinha algo em torno de vinte e cinco anos, penso. Vestia uma calça de moletom branca, daquelas usadas para se relaxar no parque; a blusa, rosa e sem estampas, revelava só um pouco da barriga, aquele pouco nem carola, nem oferecido. Era esbelta. Talvez tivesse seios fartos demais, é verdade, mas isso não me incomodou em absoluto – muito menos me incomoda hoje. Os cabelos, escuros como os olhos, eram lisos-cleópatra, de corte médio, com uma franja que caía displicentemente aos olhos. As unhas, pintadas de vermelho intenso, coroavam mãos alvas e delicadas, pequenas perto daquele balde desproporcional de pipoca. Sozinha, comia com calma enquanto aguardava a liberação da fila pelo sujeito mal-humorado da catraca.

infante.jpgNo exato momento em que a vi, cuidei de largar rapidamente da mão da minha mãe; nesta idade, queremos ser crianças apenas quando nos é conveniente. Lembro-me que coloquei as mãos nos bolsos, tomando um ar seguro e blasé – nada convincente -, e fiquei a observá-la de canto de olho.

Eu estava totalmente entregue.

Via-nos viajando pela Europa, rindo no sofá da sala, correndo para fugir da chuva. Cenas clichês de comercial junino permeavam todas as paredes do shopping, e a vida repentinamente tomou um ar não tão tedioso assim. Todo esse delírio foi interrompido de brusco quando uma simples pipoca caiu ao chão, parando exatamente ao meu lado; e, patético ou não, fazendo-me enrubrecer.

Ela olhava para mim.

O coração, quando bate forte, incha as veias dando-nos a impressão de que vai sair pela boca. A tontura e o rubor denunciam a tudo e a todos o que o coração grita lá de dentro, histérico. “O que diabos está acontecendo comigo?”.

Ela percebeu. Olhou-me – tremi -, piscou – morri -, e riu da cena toda. Mas não foi um riso de deboche, nem um riso que me pusesse no meu devido lugar. Foi um riso de carinho, cor-de-rosa, riso com jeito de “olá, seu tolinho”.

E, exatamente naquele riso, eu entendi o tal coração histérico. O rubor que queima. O jogo do olha-não-olha, do abraço-quer-mais, das mãos que se unem quando se puxa o cabo de guerra, do andar de bicicleta a dois. Aquele riso explicou-me o real significado de um flerte. E eu entendi.

Lembro-me de ter pensado horas depois, em casa – quando já me era possível pensar em algo -, que se ela soubesse do poder revolucionário que aquele riso alçaria na mente de um imberbe, talvez ela não o tivesse feito. Realmente acredito que não. Ser responsável, num mesmo movimento, pelo enterro de um infante e parto de um homem não é algo tão trivial assim.

A fila começava a andar, enquanto minha mãe tentava tirar-me daquele torpor eterno. É desnecessário dizer que, apesar de entrar na sala de exibição, eu não vi muito do filme. Eu estava muito longe dali. Eu estava muito longe de mim.

Nunca tive a chance de agradecê-la.

Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.

O tema Rubric Blog no WordPress.com.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.