O enterro foi há quinze ou dezesseis anos. Eu, na fila do cinema, em companhia da minha mãe. Naquela época de transição de idades em que ir ao cinema com a mãe – de mãos dadas, ainda por cima! – já nos soa bastante desconfortável, mas não completamente desaconselhável. Bobagem pueril. Mais tarde, isso tudo se inverte.
Apesar da minha célebre memória esclerótica, lembro-me de detalhes ínfimos da tal protagonista da cena. Os pormenores, que vão da roupa aos gestos – incluindo o jeito como ela ria, fechando um pouco os olhos -, são-me tão nítidos e recentes quanto o dia de ontem.
Tinha algo em torno de vinte e cinco anos, penso. Vestia uma calça de moletom branca, daquelas usadas para se relaxar no parque; a blusa, rosa e sem estampas, revelava só um pouco da barriga, aquele pouco nem carola, nem oferecido. Era esbelta. Talvez tivesse seios fartos demais, é verdade, mas isso não me incomodou em absoluto – muito menos me incomoda hoje. Os cabelos, escuros como os olhos, eram lisos-cleópatra, de corte médio, com uma franja que caía displicentemente aos olhos. As unhas, pintadas de vermelho intenso, coroavam mãos alvas e delicadas, pequenas perto daquele balde desproporcional de pipoca. Sozinha, comia com calma enquanto aguardava a liberação da fila pelo sujeito mal-humorado da catraca.
No exato momento em que a vi, cuidei de largar rapidamente da mão da minha mãe; nesta idade, queremos ser crianças apenas quando nos é conveniente. Lembro-me que coloquei as mãos nos bolsos, tomando um ar seguro e blasé – nada convincente -, e fiquei a observá-la de canto de olho.
Eu estava totalmente entregue.
Via-nos viajando pela Europa, rindo no sofá da sala, correndo para fugir da chuva. Cenas clichês de comercial junino permeavam todas as paredes do shopping, e a vida repentinamente tomou um ar não tão tedioso assim. Todo esse delírio foi interrompido de brusco quando uma simples pipoca caiu ao chão, parando exatamente ao meu lado; e, patético ou não, fazendo-me enrubrecer.
Ela olhava para mim.
O coração, quando bate forte, incha as veias dando-nos a impressão de que vai sair pela boca. A tontura e o rubor denunciam a tudo e a todos o que o coração grita lá de dentro, histérico. “O que diabos está acontecendo comigo?”.
Ela percebeu. Olhou-me – tremi -, piscou – morri -, e riu da cena toda. Mas não foi um riso de deboche, nem um riso que me pusesse no meu devido lugar. Foi um riso de carinho, cor-de-rosa, riso com jeito de “olá, seu tolinho”.
E, exatamente naquele riso, eu entendi o tal coração histérico. O rubor que queima. O jogo do olha-não-olha, do abraço-quer-mais, das mãos que se unem quando se puxa o cabo de guerra, do andar de bicicleta a dois. Aquele riso explicou-me o real significado de um flerte. E eu entendi.
Lembro-me de ter pensado horas depois, em casa – quando já me era possível pensar em algo -, que se ela soubesse do poder revolucionário que aquele riso alçaria na mente de um imberbe, talvez ela não o tivesse feito. Realmente acredito que não. Ser responsável, num mesmo movimento, pelo enterro de um infante e parto de um homem não é algo tão trivial assim.
A fila começava a andar, enquanto minha mãe tentava tirar-me daquele torpor eterno. É desnecessário dizer que, apesar de entrar na sala de exibição, eu não vi muito do filme. Eu estava muito longe dali. Eu estava muito longe de mim.
Nunca tive a chance de agradecê-la.
Ilustração por Ian Herman e texto por Tiago P. S.
Lindo!! Adorei… como sempre!
Comment por Fabi — Maio 8, 2007 @ 8:20 am |
Genial, Tiago. Sou amiga do Ian e vim aqui nesse link por causa dos desenhos dele. Poético, como muito pouco a genet imagina que um menino pode ser. Parabéns.
Comment por Juba — Maio 9, 2007 @ 4:03 pm |
Feliz você de poder lembrar o exato momento da mais pura transformação de um menino bobo para um homem tolo. Tolo-por-assim-dizer de um homem que se atrapalha todo por um sorriso. Um homem lindo, apaixonado, escasso.
E que escreve muito bem!!!
Saudade.
Comment por Anna Paola — Maio 9, 2007 @ 4:23 pm |